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ASPECTOS EMPRESARIAIS DA FARMÁCIA

Pode-se afirmar que há várias formas de se olhar o Brasil.

Um país que se posiciona entre as 10 maiores potências do mundo, com a renda per capita oscilando entre a 3ª e 4ª maior média mundial e uma perspectiva atual (2004) de 2,7% de crescimento na economia. O setor agropecuário, quebrando recordes de produtividade e tendo reservas consideráveis de áreas para expansão. Parque industrial renovado, com bons índices de produtividade e excelentes projeções de vida útil. Domínio sob desenvolvimento e utilização de tecnologias de ponta. Auto-sustentabilidade energética e condições favoráveis para desenvolvimento de fontes alternativas. Isso sem contar, com a abundância de riquezas em recursos naturais. Seria esse o retrato de um paraíso terrestre se não houvesse um outro quadro a se olhar...

Não se há muito mais há falar sobre as questões históricas brasileiras da má distribuição de renda e o fosso profundo entre os poucos que têm muito e os muitos, que não têm nada ou quase nada. Em números redondos, 75% da população brasileira vive com menos de 5 salários mínimos e destes, em números inexatos e otimistas, 20 milhões estão “vivendo (?)” abaixo da linha da miséria.

Existe uma preocupação real no processo de distribuição de renda, mas há de se pensar e criar, urgentemente, condições de distribuição produtiva. E isso não se pode pensar somente pelo prisma da geração de empregos e renda mas, principalmente, pela plena possibilidade de acesso a riquezas. Sobrevivência, sustentabilidade responsável, educação, saúde, infra-estrutura e principalmente, dignidade. O problema é mais profundo e se percebe, claramente, na hora em que, em uma esquina qualquer um garoto ou garota se aproxima e aponta uma arma na sua ou minha cabeça e fala: “... vai passando as coisa ai, tio!”.

A sociedade brasileira contemporânea está dividida entre o setor público, o setor privado e um incipiente 3º setor. Imputar que as ações necessárias para a construção de uma sociedade “mais justa” sejam somente responsabilidade do Setor Público é uma falácia, quando não, uma hipocrisia. Basta lembrar de onde vêm os recursos que movimentam a máquina do governo e o resultado de atitudes milagrosas e formas mirabolantes para resolver o problema social do Brasil que já foram, por diversas vezes, pautas de teorias e, mais ainda, adotadas em planos de vários governantes. Sabe-se aonde isso vai parar.

O parâmetro regulador da relação entre os dois principais setores é regido por leis em um processo de aplicabilidade extremamente burocrático e, por isso mesmo, ineficiente. Tantas são as exigências quantas são suas fragilidades e nesse emaranhado, surgem as inoperâncias para a maioria e eficácia para poucos escolhidos. Entre inúmeros casos que poderiam ser citados para exemplificar essa “desregulamentação” ou dualidade, aproveitemos uma que ocorre diariamente no setor dos medicamentos. A questão do fracionamento de medicamentos nas farmácias e drogarias. A Indústria Farmacêutica produz medicamentos em apresentações com quantidades fixas e embaladas. Em muitos casos, essas quantidades são superiores ou, em outros casos, insuficientes as necessidades do tratamento prescrito. A farmácia não pode fracionar as apresentações com quantidades superiores ou inferiores de medicamento para o atendimento da quantidade necessária ao paciente, sob a pena de ser atuada pela Vigilância Sanitária e o consumidor não pode ser obrigado pela farmácia a comprar quantidades superiores do medicamento, sob pena de ser autuada pelos órgãos de defesa do consumidor.

Em virtude da nossa formação cultural – fundamentada na relação inicial do extrativismo no período colonial; a influência do modelo comercial agressivo importado, principalmente, da escola americana de administração no pós-guerra (efeito Baby Boom – década de 50), que tinha como objetivo a desova de produção acelerada ocasionada pelo efeito da revolução industrial e, ainda, o recente efeito inflacionário brasileiro que cultuou o investimento no mercado financeiro em detrimento do mercado produtivo – sérias conseqüências estão sendo sentidas quando se percebe a criação de uma geração de empreendedores imediatistas, com ideais e metas estabelecidas para cumprimento em curto prazo e que, ansiosos por sentirem que suas expectativas não correspondem às perspectivas, se sentem inseguros cognitivamente frente aos desafios que se apresentam. Prova inconteste e fundamentadas estão nos números estatísticos que apresentam índices alarmantes de empresas que fecham entre o 1º e 2º ano de vida e nos números catastróficos da  informalidade na economia brasileira.

Não poderia ser diferente no estabelecimento farmácia.

Mesmo com aumento, em março de 2004, no volume total de vendas na ordem de 22,28% no mensal e 11,19% acumulado ao ano, ainda assim, a maioria arrasadora dos varejistas de pequeno e médio porte do setor reclama da crise. Neste espírito reclamam da carga tributária; dos custos administrativos e operacionais; dos salários dos funcionários e colaboradores e tentam reduzir custos com atitudes que beiram, e às vezes ultrapassam, a fronteira da legalidade. Em recente pesquisa publicada na Revista Exame – Junho de 2004, somente no Estado de São Paulo, 50% destes estabelecimentos sonegam os impostos devidos. Sem falar em outras arbitrariedades como compra de medicamento de procedência duvidosa; venda de psicotrópicos sem controle; comercialização de produtos com validade vencida; resistência no pagamento do piso salarial do profissional farmacêutico e mais ainda, na realização do seu trabalho como profissional da saúde. Enfim, para usar um jargão do meio, geralmente os “efeitos desses remédios podem ser piores do que a doença”.

Existem 4 fatores que incidem diretamente sobre a lucratividade dessas empresas e estão intrinsecamente ligados, porém, quase nunca são citados, a saber:

1.      objetivo

A escolha do ramo de negócios e a localidade onde é escolhido para se montar um estabelecimento comercial é de vital importância para a sobrevivência e longevidade do empreendimento.

Em muitos casos, estas escolhas acontecem de forma aleatória e geralmente influenciada por um conhecimento superficial sobre as práxis comerciais e a potencialidade da região. É comum a frase “fulano ficou rico depois que montou o tal negócio em determinado lugar”. Olha-se para o mercado a partir do bolso quando seria mais sensato – e barato ao capital inicial do empreendimento – descobrir primeiro a compatibilidade pessoal,  o potencial do mercado e, por fim, ter compreensão de que o volume de dinheiro no bolso é proporcional a capacidade administrativa. 

2.      logística

            Em uma pesquisa realizada pelo Sindicato dos Farmacêuticos no Estado de Goiás (Sinfar/GO) – publicada no seu informativo “Voz Farmacêutica” de dezembro de 2003 – revela um retrato bastante inusitado da atual distribuição geográfica das empresas varejistas de medicamento na capital do estado.

Goiânia é hoje uma cidade com mais de um milhão e duzentos mil habitantes (estimativa IBGE) divididos em 391 bairros (mapa digital/Pref. Goiânia), no entanto, somente em 144 destes bairros existem farmácias legalizadas com a presença de farmacêuticos(as). Sendo que destes, 7 bairros (considerados, pelo senso comum, nobres ou estrategicamente comerciais) acumulam 41,4% de todos os estabelecimentos do município.

3.      concorrência predatória

Essa deformação, na distribuição de pontos de vendas a varejo provoca um enorme custo, que incide diretamente na lucratividade dos produtos comercializados, e que são elencados a seguir:

·         maximiza os custos estruturais, aumentando-os desproporcionalmente na elaboração e execução de fachadas externas e layout´s internos, que devem se tornar obrigatoriamente chamativos, com representativo desembolso mensal de manutenção.

·         aumenta a necessidade de investimento em estratégias de divulgação institucional, propagandas e outros eventos promocionais;

·         provoca uma corrida depreciativa dos preços dos produtos, em detrimento das margens de custo operacional e de lucratividade, uma vez que se perde o sentido da relação custo-benefício na venda efetuada;

·         promove um ambiente interno de trabalho tenso e competitivo, a ponto de transformar a negociação com o consumidor final – sentida com profundo constrangimento por este – em uma relação entre vendedor e vítima.

Um outro fenômeno mercadológico incidente neste, como em outros segmentos, tem relação direta com o controle inflacionário promovido pelas políticas econômicas adotadas nos últimos governos e que carregam em sua estrutura efeitos reagentes de médio e longo prazo nas relações mercadológicas. Nesta nova ordem, não se têm mais as mesmas taxas de lucratividade com investimento especulativo em estoque. As empresas de distribuição em atacado estão migrando para a distribuição a varejo e fazendo concorrência pesada na disputa de fatias deste mercado. Essa mudança de objetivos vem acarretando uma efervescência e corrida desenfreada no segmento, agravando os efeitos da péssima logística demonstrada acima, interferindo nas estratégias comerciais das empresas de pequeno e médio porte, chegando até a provocar insegurança comercial e alterações operacionais nos canais de distribuição de produtos pelas industrias, favorecendo o surgimento de associações de consumidores de medicamentos e abertura de farmácias populares pelos poderes públicos fechando, ai sim, um processo perigoso de estatização do mercado.

4.      fluxo de caixa

Incondicionalmente essas variáveis estão afetando o equilíbrio entre os fluxos de débito e crédito das empresas. E é nesse momento que se decide quem irá sobreviver ao mercado.

Não há milagres. Uma administração eficiente de negócios é que fará a diferença. Quem tiver um planejamento estratégico que contemple objetivos e metas exeqüíveis; que respeite os capitais de giro e investimento, sem precisar se fundamentar sobre as taxas de juros em curto prazo praticadas nas instituições financeiras; controle sobre estoque e sobre a movimentação financeira do estabelecimento, sem confusão entre o caixa da pessoa jurídica e o bolso da pessoa física; referência entre os clientes (fidelização) e compromisso com a responsabilidade social da farmácia, agregando valores aos produtos através de serviços indispensáveis a boa qualidade de vida dos seus pacientes – que apresenta um perfil, cada vez mais, exigente – com certeza sobreviverá.

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